Coisas da Amazônia

Agronegócio: uma questão de oferta e procura

Maio 29th, 2008

Nos últimos meses temos sido alertados sobre os efeitos de uma inflação elevada sobre os produtos agrícolas, notadamente os alimentares. Este crescimento dos preços teria como um de seus motores o avanço dos biocombustíveis. Um estudo publicado conjuntamente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) diz que o drama deve se manter até 2017.

Segundo estas previsões, os preços do açúcar bruto e refinado devem aumentar em 30%. A carne bovina e de porco deve registrar alta de 20% até 2017. O trigo, o milho e o leite desnatado em pó devem aumentar de 40% a 60% no período.

Um dos pontos que devem ser discutido e que o relatório não leva em consideração é participação das ‘vovozinhas’ americanas neste jogo. Traduzindo, os fundos de investimentos, catapultados por fundos de pensão, estão entrando no jogo das commodities e comprando e vendendo alimentos e minerais nos mercados futuros. A briga tem sido tão séria que o volume negociado é muito maior que a quantidade produzida. Ou seja, negocia-se virtualmente uma produção inexistente e que sequer será produzida, tudo em função da especulação. Uma questão de mercado desregulado e entregue a si própria para a fiscalização, onde os poucos donos do capital ganham à custa da vida de uma massa de desvalidos monetários.

Assim, juntando a este cadinho de problemas a possibilidade de China e Índia estarem comendo (não mais, mas apenas agora comendo), têm-se, naturalmente, uma pressão sobre o mercado de alimentos. Uma das maiores leis do mercado é de que aumentada a procura sem o correspondente na produção, gera aumento de preços sobre o produto desejado. É claro que se houver substitutos possíveis o impacto será menor ou, ainda se o material desejado não for de primeira necessidade (não é o caso dos alimentos básicos).

Mas um fato que parece passar despercebido ocorre exatamente por conta das mudanças na pressão exercida na ponta consumidora. Com o aumento dos preços pela demanda aquecida, começa a haver um aumento do interesse do produtor em ampliar ou mesmo mudar o tipo de alimento produzido. Assim, se os alimentos básicos tiverem seus preços elevados, os produtores de cana-de-açúcar, soja e pecuaristas vão mudar de foco. Nas condições atuais de produção, não é muito difícil (ao menos para produtores capacitados) adquirir novos equipamentos ou, em certos casos, calibrá-los. Este último é o caso das plantadeiras e colhedeiras.

Para isso se confirmar, é preciso apenas que as expectativas sejam favoráveis por período de tempo que justifique o investimento e promova retornos maiores do que isso. No Brasil, é sabido também haver uma grande quantidade de terras ociosas, cuja entrada em produção pode se dar em um prazo relativamente curto. Logo, a resposta a uma maior demanda virá em uma ou duas safras.

É claro que o problema do trigo é um fato à parte, pois o país é dependente de importações. Mas mesmo neste, a ser real a previsão da ONU, como são cerca de 10 anos, é possível se aplicar recursos em pesquisa para tentar reduzir esta dependência. Porém, os resultados demorariam no mínimo cinco anos, pois a pesquisa neste setor esta parada desde os anos 90.

Com a ampliação dos investimentos na agricultura, haverá uma maior geração de empregos, pois é o setor que mais onde os investimentos têm a maior resposta em termos de abertura de novas vagas. Este é o crescimento por sobre a inflação, sendo que neste caso esta age estimulando a produção e pode até ser benéfica, se administrada.

Mas tudo pode ser contido e destruído se o Banco Central ampliar a taxa de juros e Real continuar se valorizando. Assim, atém mesmo na agricultura, estaremos gerando empregos no exterior (que podem vir rapidamente da Bolívia e do Paraguai). E outro fator é a desregulamentação da atuação nos mercados futuros, onde o jogo pesado de especuladores pode destruir uma economia baseada em commodities. Mas estes dados  são fundamentos da liberalidade econômica (se o preço local é alto, importa-se), cujos resultados tem sido a transferência de riquezas do Brasil para o exterior (vide a deterioração da balança de pagamentos e do saldo comercial).

Régis Paiva, Eng. Agr. MSc

Células-Tronco: Contra ou favor

Maio 28th, 2008

A questão das células-tronco é algo que envolve diversas visões sobre um mesmo problema. Inicialmente têm-se questão religiosa, onde o conceito do início da vida varia de denominação para denominação, havendo contras e a favor. Mas de maneira geral cada uma tem suas restrições. Existe ainda o fato de que dois espíritos não ocupariam o mesmo corpo e que a vida propriamente dita só ocorreria com o “sopro da vida”, ao nascimento.

Do ponto de vista biológico também há divergências, pois para alguns o começo seria a partir da formação da rede neurológica ou o momento em que as informações neurológicas começam a serem recebidas pelos neurônios. Ou seria quando estes se formam? Ou, quem sabe, quando as sinapses estariam aptas para sua função?

Mas, poderia ser a partir da formação do que entendemos como sendo os rudimentos do cérebro. Mas neste caso, como explicar que crianças anencéfalas sobrevivem por algum tempo após a concepção?

Poderia ser também a partir do momento que o feto já tem condições de vida ultra-uterina. Isso ocorre por volta do quinto mês de gestação. Porém, se assim fosse, a pesquisa com células-tronco poderiam se dar até aí, ampliando o tempo para abortos.

Se a vida acaba com o fim da atividade cerebral, qual o motivo de tantas pessoas com morte cerebral permanecerem respirando mesmo depois que os aparelhos são desligados. E o que dizer dos casos de pessoas nestas condições que voltaram a realidade?

Existe também o apelo emocional de paraplégicos e portadores de doenças degenerativas se arrastando ou tremendo em frente de câmeras. Sem falar em outras patologias, como as distrofias, alzheimer, etc.

Assim, a vida como conhecemos ainda é uma incógnita. Espiritual e tecnicamente não há como saber onde ela começa.

Mas se sabe onde termina. E disso temos a certeza: a morte é a incapacidade de uma célula se manter e reproduzir. Mas aí surge outro complicador: a célula tronco não mantém seu poder de vida? E se assim é, não está sendo utilizada uma fusão de vidas, findando a forma original para dar suporte à outra?

Mas um outro ponto ainda não se viu ser debatido: Qual é o tamanho dos bancos de células embrionárias descartadas pelas instituições de fecundação in vitro? Além disso, qual o custo da manutenção destes (os embriões têm de ser mantidos em criogenia)?

A isso se some o fato de que com a liberação de pesquisas pode ter-se uma explosão das fecundações artificiais com o único fito de se obter uma superprodução de células não fecundadas para o uso em pesquisas. As quais seriam compradas e formariam um mercado de vendedor, coletor e distribuidor.

É possível que por trás deste discurso científico esteja um grande mercado para os embriões descartados. Principalmente quando se puder procurar pessoas com DNAs compatíveis, as quais serão e$timulada$ a produzirem e venderem seus embriões.

Não tenho posição fechada sobre o tema. Apenas acho que muito pouca ciência está sendo aplicada e que um grande nicho comercial está sendo gestado por baixo deste discurso todo e do apelo que este tema tem suscitado. Um jogo onde setores da mídia se envolvem por conta da comoção e, com isso, atropelam a discussão sobre o tema.

Se matar um ser humano (ainda que em sua forma primária de vida) para salvar outro for justificado, devemos rever a história e render loas a Joseph Menguele, pois muitas das mortes violentas, grotescas e desprezíveis perpetradas por ele foram com este objetivo.

Somente para terminar: existem células tronco tão boas quanto as embrionárias em diversas partes do corpo, a começar pelo cordão umbilical de bebês e até na pele adultos. Mas pouco se explora sobre isso. Por quê?

Régis Paiva, Eng. Agr. MSc.

Comendo pau

Maio 21st, 2008

Uma opção, seja ela em qualquer área ou setor, sempre implica em ganhos e perdas. Afinal não existe algo onde todos ganham, pois para um poder ganhar o outro deixa de ganhar (ou até mesmo perde). Somente na teoria primária do capitalismo se via a possibilidade do ganho se igualmente distribuído para todos.

O Estado do Acre, depois do fracasso de dois governos inoperantes (em que pese o momento econômico-político ter influenciado), fez uma opção pela exploração florestal, onde se apregoava que, parafraseando o belo hino do Santo Daime, da floresta eu tenho tudo, tudo ela me dá.

A partir deste momento os dados do IBGE (até o ano de 2005) mostram ter havido uma redução na produção de alimentos, com um possível (e provável) abandono do setor agrário. Este existe mesmo não sendo do interesse oficial (Segundo o Anuário Estatístico 2005 eram cerca de 21 mil famílias somente em assentamentos oficiais,  com uma população total da ordem de 100 mil pessoas). O índice de urbanização da mesma época estava na casa 68,4%, o qual revela um total de aproximadamente 200 mil pessoas residido na área rural naquele momento da história do Estado.

As produções de macaxeira (335,9 mil t em 1990 e 347,6 mil t em 2004), feijão (7,4 mil t e 4,4 mil t, respectivamente e para 2005), arroz (43,6 mil t e 31,6 mil t., idem) e milho (53,7 mil t e 61,0 mil t. idem) se mantiveram praticamente as mesmas (ou caíram) entre 1990 e 2005 (IBGE/Sistema Sidra). Estas são as principais culturas alimentares da população brasileira. O resultado foi uma insegurança alimentar (não têm certeza de se alimentarem) no setor rural da ordem de 74,7% (61,3% urbana) de insegurança total, dos quais 28,5% de pessoas que não sabem o que vão ingerir na próxima refeição – insegurança grave (IBGE/PNAD, 2004).

Em termos de indicadores sociais, o IDH (2000, segundo Anuário 2005) acreano está em 0,625 (entre os piores do país). Já a educação registrava, em 2005, 142 mil analfabetos (25% da população), conforme IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A PNAD revela ainda que a maior concentração está no grupo com até quatro anos de estudo (47%). Segundo MEC/INEP, o Acre possui uma escola de ensino médio para cada 9,3 mil alunos.

Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA (2005), revelam ter crescido a concentração de renda (piorado o coeficiente de Gini) no Estado do Acre no período entre 1995 e 2003, passando da faixa de 0,585 para 0,620 (entre os maiores do país). A renda mediana (dados da Fundação Getúlio Vargas-FGV) apresenta, a partir de 1998, uma tendência de queda (passando de R$ 226,08 para R$ 184,00). Um dado similar começa a aparecer na média a partir de 2001 (média de R$ 371,7, para uma média geral de R$ 397,2,  e uma redução média de 14,1% de 2002 sobre 2001), conforme dados da FGV.

Segundos dados da PNAD/IBGE, a participação de pessoas com ganhos de até 1 salário mínimo (SM) sobre o total da população cresceu 11,5% entre 2001 e 2004 (crescimento de 72,9% entre os sem renda e aumento de 4% em sua participação sobre o volume total). Entre os com ganhos acima de um e menos de cinco SM houve uma redução de 8,7% na participação sobre o volume total, entre cinco e 10 SM redução de 44,9%, 10 e 20 caiu 50,5% e com mais de 20 SM caiu 68,8% em relação ao total de 2001. Os dados confirmam a queda da renda média do acreano apontados no estudo do IPEA e da FGV.

Todos os dados, em que pesem serem dois ou três anos de atraso, mostram que o Estado ainda patina e, às vezes, anda para trás, principalmente quando de trata indicadores sociais.

Mas, por conta de um desses pensamentos fugazes, me veio à lembrança de que em algumas regiões do país (principalmente do Nordeste) chama-se a farinha de macaxeira de 'farinha-de-pau'. Talvez pela semelhança entre os restos da serra da madeira (serragem) se assemelharem a certos tipos de farinha (e em certos casos até no gosto, exceto para a farinha de Cruzeiro do Sul – a melhor).

No mesmo dia deste pensamento fiquei sabendo que o preço da macaxeira (mandioca ou aipim para os não afeitos ao dialeto nortista ou acreano) estava em R$ 1,50.

A que ponto chegamos: a macaxeira já não é comida de pobre. A carne aqui é uma das mais baratas do país (embora ainda longe do prato do menos favorecido), mas a macaxeira já é coisa para poucos.

Foi então que finalmente me dei conta: o nosso futuro é comer pau ou 'farinha de pau' (sem hífen). Literalmente.

Artigo Publicado em Jornal (ORB, set/2008)

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