Agronegócio: uma questão de oferta e procura
Nos últimos meses temos sido alertados sobre os efeitos de uma inflação elevada sobre os produtos agrícolas, notadamente os alimentares. Este crescimento dos preços teria como um de seus motores o avanço dos biocombustíveis. Um estudo publicado conjuntamente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) diz que o drama deve se manter até 2017.
Segundo estas previsões, os preços do açúcar bruto e refinado devem aumentar em 30%. A carne bovina e de porco deve registrar alta de 20% até 2017. O trigo, o milho e o leite desnatado em pó devem aumentar de 40% a 60% no período.
Um dos pontos que devem ser discutido e que o relatório não leva em consideração é participação das ‘vovozinhas’ americanas neste jogo. Traduzindo, os fundos de investimentos, catapultados por fundos de pensão, estão entrando no jogo das commodities e comprando e vendendo alimentos e minerais nos mercados futuros. A briga tem sido tão séria que o volume negociado é muito maior que a quantidade produzida. Ou seja, negocia-se virtualmente uma produção inexistente e que sequer será produzida, tudo em função da especulação. Uma questão de mercado desregulado e entregue a si própria para a fiscalização, onde os poucos donos do capital ganham à custa da vida de uma massa de desvalidos monetários.
Assim, juntando a este cadinho de problemas a possibilidade de China e Índia estarem comendo (não mais, mas apenas agora comendo), têm-se, naturalmente, uma pressão sobre o mercado de alimentos. Uma das maiores leis do mercado é de que aumentada a procura sem o correspondente na produção, gera aumento de preços sobre o produto desejado. É claro que se houver substitutos possíveis o impacto será menor ou, ainda se o material desejado não for de primeira necessidade (não é o caso dos alimentos básicos).
Mas um fato que parece passar despercebido ocorre exatamente por conta das mudanças na pressão exercida na ponta consumidora. Com o aumento dos preços pela demanda aquecida, começa a haver um aumento do interesse do produtor em ampliar ou mesmo mudar o tipo de alimento produzido. Assim, se os alimentos básicos tiverem seus preços elevados, os produtores de cana-de-açúcar, soja e pecuaristas vão mudar de foco. Nas condições atuais de produção, não é muito difícil (ao menos para produtores capacitados) adquirir novos equipamentos ou, em certos casos, calibrá-los. Este último é o caso das plantadeiras e colhedeiras.
Para isso se confirmar, é preciso apenas que as expectativas sejam favoráveis por período de tempo que justifique o investimento e promova retornos maiores do que isso. No Brasil, é sabido também haver uma grande quantidade de terras ociosas, cuja entrada em produção pode se dar em um prazo relativamente curto. Logo, a resposta a uma maior demanda virá em uma ou duas safras.
É claro que o problema do trigo é um fato à parte, pois o país é dependente de importações. Mas mesmo neste, a ser real a previsão da ONU, como são cerca de 10 anos, é possível se aplicar recursos em pesquisa para tentar reduzir esta dependência. Porém, os resultados demorariam no mínimo cinco anos, pois a pesquisa neste setor esta parada desde os anos 90.
Com a ampliação dos investimentos na agricultura, haverá uma maior geração de empregos, pois é o setor que mais onde os investimentos têm a maior resposta em termos de abertura de novas vagas. Este é o crescimento por sobre a inflação, sendo que neste caso esta age estimulando a produção e pode até ser benéfica, se administrada.
Mas tudo pode ser contido e destruído se o Banco Central ampliar a taxa de juros e Real continuar se valorizando. Assim, atém mesmo na agricultura, estaremos gerando empregos no exterior (que podem vir rapidamente da Bolívia e do Paraguai). E outro fator é a desregulamentação da atuação nos mercados futuros, onde o jogo pesado de especuladores pode destruir uma economia baseada em commodities. Mas estes dados são fundamentos da liberalidade econômica (se o preço local é alto, importa-se), cujos resultados tem sido a transferência de riquezas do Brasil para o exterior (vide a deterioração da balança de pagamentos e do saldo comercial).
Régis Paiva, Eng. Agr. MSc
