UFAC: Um espaço livre
Nesta última campanha para o cargo de reitor (ou seria reitora?) aqui na UFAC vimos alguns temas virem à baila. Um deles foi o aumento dos furtos dentro da academia. Segundo algumas intervenções nos debates, não haveria mais segurança para os veículos e seus equipamentos quando parados no estacionamento da instituição. Isso é realmente um problema. Mas pode ser minorado com o fortalecimento da estrutura de vigilância (hoje quadro em extinção nas Universidades Federais), seja em pessoal ou equipamento (como veículos, armamento ou mesmo câmeras de vigilância). Mas o que me leva a escrever agora (depois de duas semanas de ruminação sobre o tema) é a preocupação de alguns setores da UFAC com relação a um suposto aumento no consumo de drogas no interior do Campus. Aqui preciso abrir um ‘porém’, antes de prosseguir: sou cristão praticamente, heterossexual (um tanto machista), não bebo e não fumo. E aí, você que lê, se pergunta: Qual o motivo de dizer isso? Explico. Os dois temas acima não são gerados nos muros da instituição, mas apenas migram de fora para dentro. Ou seja, as alterações nos modos de ser da sociedade estão adentrando os muros da UFAC. Mas ao invés de se discutir o porquê destes fatos estarem acontecendo, o que seria o normal na Academia, tentamos apenas criar mecanismos para abafá-los, sem entendê-los. Se excluirmos o primeiro tema, dado sua importância direta sobre o patrimônio e que merece ação rápida, vemos que o segundo merece mais uma ampliação da discussão do que o longo braço repressivo da lei. E aqui complemento o ‘porém’. Por ser uma área onde os temas devem ser discutidos sem culpa ou mesmo xenofobias digo em alto e bom som (escrito): a Academia é um espaço livre para todas as práticas, desde que estas não afetem aos outros. Se seu ateísmo, homosexualismo, cigarro, bebida ou outras drogas não me afetam, pratique (e seja responsável pelos seus atos). Do mesmo jeito que respeito a opinião dos primeiros, respeito o baseado dos últimos. Assume-se idéia de que os alunos desta casa são adultos para discutir seus destinos. E cada um destes temas deve ser trazido ao debate. Não podemos apenas criminalizar o uso das drogas ou mesmo pedir ações constantes da Polícia Federal no Campus. Devemos sim é abrir um grande debate sobre o tema, onde os seus defensores e opositores possam ter o mesmo espaço para divulgar seus argumentos. Em uma Universidade não se pode excluir este ou aquele assunto. Segundo Luis Nassif, em seu “O Jornalismo os anos 90”, Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil) revela que o brasileiro é mais receptivo à declaração peremptória, definitiva, ainda que vazia de conteúdo, mas que não obrigue a pensar. O brasileiro prefere mais a conclusão que a demonstração, “o que fazer” ao “como fazer”, valoriza mais quem critica do que quem faz. Isso precisa ser mudado. Não podemos nos contentar com o discurso de que isso é proibido e encerrar a discussão. Antes de tomar atitudes violentas e xiitas (me perdoem os Muçulmanos desta corrente por usar esta expressão), temos de analisar os fatos. Enquanto Academia temos perdido, ao longo dos anos, nossa capacidade de debater a sociedade e devolver a ela as nossas conclusões. Hoje a sociedade nos devora como uma cobra a engolir seu próprio rabo. Resta saber quando poderá engolir sua própria cabeça. E não entendemos o andar da carruagem do tempo. Seguindo esta linha de pensamento, não temos visto debates pelos corredores a respeito do baixo comparecimento às urnas na eleição. Precisamos ampliar os debates para podermos conhecermos-nos. É como se estivéssemos diante de um ‘espelho Esfinge’ com o nosso próprio rosto. E como na mitologia ela diz (ou implora): Decifra-me ou te devoro (e com isso a imagem se destruirá). Numa definição mais abrangente, a Academia, fundada em 387 a.C. pelo filósofo grego Platão no bosque de Academos próximo a Atenas, pode ser entendida como a primeira universidade. A palavra Universidade quer dizer instituição que tem por objetivo fornecer ensino de nível superior. Se é superior é para aqueles que têm o mérito de ali estar. E assim, nada poderá ficar excluído em seus muros. Aqui temos de respeitar as diferenças. Sou contra aquilo que não pratico e que está descrito no ‘porém’, mas defendo a liberdade de quem quer praticá-lo, ao menos aqui dentro e com consciência dos riscos. Se alguns ainda não são maduros o suficiente para lidar com estas differences, talvez seja a hora de procurar uma escola de terceiro grau.
