Coisas da Amazônia

A opção pelo boi

Setembro 29th, 2008

Já faz algum tempo que se discute a migração de pequenos produtores agrícolas para a pecuária no Estado do Acre. Até mesmo alguns estudos já demonstraram aquilo que se vê na prática. Dentre estes está o Zoneamento Ecológico, que verificou isso até mesmo dentro da reserva Chico Mendes. Apesar disso, pouco se falou sobre os motivos que levam produtores historicamente ligados à agricultura migrarem para a pecuária.

Um das explicações pode estar na busca por produzir mercadorias com maior mercado e mais fáceis de serem retiradas da propriedade nos períodos chuvosos. Na Amazônia e mais especificamente no Acre, historicamente os projetos de assentamento foram localizados em distâncias consideráveis dos núcleos urbanos, sendo que muitos deles possuem dezenas de quilômetros de ramais (estradas vicinais).

Estes ramais são carroçáveis por curto espaço de tempo entre maio e setembro. Isso se as chuvas anteriores não tiverem destruído o leito ou as pontes ou, ainda, se o Estado não deu manutenção (normalmente raspagem com motoniveladora). Com as primeiras chuvas tudo fica mais difícil, até ficar intransitável nos meses de dezembro a março. Em busca de uma solução, a preferência sempre foi para os bovinos de corte.

Para tentar esclarecer o porquê desta preferência e mudança de comportamento, desde os anos 80, durante o curso de Engenharia Agronômica, costumávamos perguntar aos técnicos e colegas qual é a diferença de 18 arrobas (300 kg de carne – 600 kg de peso vivo) de milho e de boi. A maioria não sabia.

A resposta é simples: tente retirar os dois de uma estrada vicinal (ramal, sem pavimentação), distante alguns quilômetros da rodovia pavimentada, durante o período chuvoso na Amazônia (novembro-abril) e vai descobrir a primeira diferença (o boi vai só, independente das condições da estrada).

Mas considere que após isso foi possível chegar com os dois produtos até a beira da estrada. Fique lá com a mercadoria e uma placa de “Vende-se” e verá qual delas será comercializada primeiro (normalmente será o boi).

Mas suponha que ambos sejam vendidos ao mesmo tempo. Nesse caso veja qual remunerará melhor peso por peso. O boi paga valores próximos de dois reais no local e o milho vinte centavos. É claro que aqui não se discute as produções por hectare, pois o milho pode chegar a sete mil kg, enquanto o boi fica em três cabeças com desfrute de 20% ao ano.

Mas voltemos ao campo das hipóteses. E aí suponha que não houve a venda dos dois produtos. Assim, volte com ambos para a propriedade, trazendo tudo de volta. E novamente verá a vantagem do bovino. E, nesse caso, verifique o que acontecerá com os dois produtos: o boi vai engordar no campo, enquanto o milho requer uma estrutura de armazenamento não existente para os pequenos produtores da região.

O exemplo aqui utilizado pode ser aplicado para quase todas as culturas anuais. Aos dados pode ser somado ainda o fato de o boi ficar no pasto sob as intempéries, não havendo no Acre registros de grandes infestações (como bernes e carrapatos). Além disso, se não enfrenta problema se passar alguns meses do ponto de abate caso haja redução dos preços, além da liquidez quase imediata.

Assim o produtor migrou para a bovinocultura por falta de opção rentável para as condições e culturas locais. O problema está no fato deste processo levar a redução das culturas alimentícias, pois o gado é produto de exportação. Isso está de acordo com citado por Celso Furtado (1996). O reflexo foi sentindo diretamente nos níveis alimentares da população, que de acordo com IBGE/PNAD (2004) registrou no Acre uma insegurança alimentar rural total de 74,6% e 61,26 % Urbana.

O problema é como reverter esta situação. Onde encontrar produtos com essas características oferecidas pela bovinocultura de corte. Mas quem sabe o problema não seja somente resolver o impasse da intrafegabilidade das estradas, o que na visão de alguns somente seria a ampliação das veias para o saque. São questões em aberto e que precisam de respostas. Existem saídas para o problema das estradas (como o piçarramento e mesmo a adição de estabilizadores de solos), mas o que falta é vontade política de resolver o problema do campo.

E la vaca vá. Ops: E la nave vá.

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