A força do palito
Ao longo destes meus 27 anos de Acre sempre mantive contato próximo com o setor rural, ainda que de terra não tenha mais que uns poucos metros quadrados onde resido. Por conta disso aprendi muitas coisas com as pessoas que aqui têm suas vidas e os seus antepassados.
Nessa linha, nos dizem os antigos que o período certo para a queima do roçado, para uma boa limpeza do solo, deve se dar entre os ‘finalmentes’ de agosto até meados de setembro (alguns consideram até o final deste). Caso a ação seja feita posteriormente, há o risco de chuvas e o apodrecimento da matéria orgânica, com a perda do ‘facho’, sem o qual não haverá queima dos troncos.
É claro que existem técnicas mais modernas e com menor impacto para o solo em caso de uso agrícola. Mas, como disse certa vez a uma autoridade, todo o serviço será feito de acordo com sua disponibilidade de recursos, podendo ser feito com ouro, prata, bronze, lata ou plástico. Para cada serviço, um preço e um resultado.
Sem entrar no mérito da perda da vida e matéria orgânica depositada no solo ao longo dos anos na condição de floresta ou mesmo a compactação da superfície, é preciso dizer que a cinza gerada na queima irá alterar para cima os valores de acidez, melhorando nesse aspecto a fertilidade. Isso sem falar em outros nutrientes que serão também depositados. Com pH maior, a planta se desenvolve melhor e o que restar de matéria orgânica será melhor metabolizado.
Aquilo que a ciência já sabe hoje com estudos de laboratórios, a população já sabia por experiência. Os ‘antigos’ sabiam que uma área recém desmatada tem alta produção no primeiro ano, cai no segundo e fica mínima a partir do terceiro.
Em meados dos anos noventa acompanhamos um experimento com queimadas em capim em áreas da UFAC. Os alunos que fizeram o projeto constataram que após período de vedação (sem corte ou pastejo) a queima significou os seguintes resultados no pH: subiu no primeiro ano, voltou ao nível inicial no segundo e no terceiro ficou mais ácido que no primeiro. Resguardadas as proporções entre o pasto e a floresta, o resultado é praticamente o mesmo.
Assim, o produtor derruba e usa durante dois anos e depois abandona para esperar a recomposição da matéria orgânica no solo e acima dele, de forma a reiniciar o processo após alguns anos.
Hoje, aqui no Acre, se fala em mecanização e uso de tecnologias alternativas. Aqui faço como já fiz em relação à ‘opção pelo boi’, pois já perguntava isso nos meus tempos de graduação: Sabe qual a diferença de um trator e um palito de fósforo? Reposta: use os dois para limpar a terra e verá. É claro que você irá me recitar todos os problemas ecológicos e ambientais (redundância necessária), mas só acredito em seus argumentos quando você puder explicar a um pequeno produtor familiar analfabeto (de incontáveis gerações de analfabetos), descapitalizado e isolado pelas condições locais de infra-estrutura, que ele precisar arranjar outros meios para produzir sua sobrevivência.
A força do palito de fósforo vencendo o trator e as tecnologias é algo quase incomensurável. Nem mesmo as proibições do Ministério Público Estadual em tentar obrigar - pensei que só Juiz podia proibir - o rurícola a queimar em outubro, quando ele sabe que não dará certo, funcionaram. Ele, o agricultor, se rebela e, sem saber, usa o princípio legal do ‘estado de necessidade’ para poder manter seu sustento e de sua família, pois sem a produção feita em moldes para lá de antiquados, não sobrevive.
Não defendo as queimadas por saber de seus efeitos nefastos, mas só vou ser a favor de sua proibição para os pequenos quando forem oferecidas reais condições para que eles possam sair desta forma pré-histórica de limpeza do solo. Até defendo a força do palito, mas limitada aos pequenos. Se quiserem parar com isso ofereçam as condições necessárias (recursos, capacitação e equipamentos). Até lá, respeite a vida de quem vive e trabalha na terra.
